Esse é o tema do artigo de Julia Braun na BBC Brasil de 12 de maio de 2023. Abaixo um pequeno resumo do artigo.
O 13 de maio entrou para a história do Brasil como o dia em que a Lei Áurea foi assinada. Naquele dia, no papel, foi decretado: “É declarada extinta, desde a data desta lei, a escravidão no Brasil”.
Mas antes mesmo da assinatura do documento, milhares de homens e mulheres arrancados à força de suas terras natais começaram um processo pouco conhecido de retorno às suas origens.
Ao todo, estima-se que entre 3 mil e 8 mil afro-brasileiros tenham retornado ao continente africano durante o século 19. Eles implantaram o único exemplo, até então, de cultura brasileira exportada no mundo em comunidades na costa da África Ocidental, em territórios que hoje fazem parte de países como Benin, Togo, Nigéria e Gana.
Historiadores se baseiam nos poucos documentos da época e principalmente na história oral para reconstruir a história dos retornados.
Considera-se que os primeiros brasileiros a chegar à área da Costa Ocidental da África desembarcaram antes da década de 1830 e eram traficantes de escravos ou pessoas próximas.
Em Gana os retornados ficaram conhecidos como “tabom” por se comunicarem em português e usarem com frequência a frase “tá bom”. Há duas versões para esse nome, a primeira é que como muitos deles não falavam bem a língua local, respondiam ‘tá bom’ para tudo que não entendiam. Já a segunda é que o ‘tá bom’ era usado com frequência como uma saudação, uma forma de saber se a outra pessoa estava bem.
A comunidade que floresceu nos arredores do que hoje é Acra, a capital de Gana, ainda existe. Apesar de pouco numerosas, algumas famílias ainda carregam sobrenomes luso-brasileiros e realizam cerimônias com danças que misturam a tradição local à brasileira. Além disso, também é possível encontrar pratos típicos brasileiros, como a feijoada, sendo servidos em encontros da comunidade.
A partir da década de 1830 muitos retornos passaram a ter relação com as rebeliões e insurgências que aconteciam no Brasil, em especial a Revolta dos Malês em Salvador, na Bahia. Muitos dos escravizados libertos passaram a ser vigiados e perseguidos após esses movimentos e viram o retorno à África como uma alternativa. Muitos dos envolvidos também foram deportados à força.
Posteriormente, a partir da década de 1850, uma nova leva de pessoas, motivadas principalmente pelo fim do tráfico de escravizados no Brasil, abolido por lei nesse mesmo ano, passou a retornar à África.
Em seu livro Sou brasileiro: história dos tabon afro-brasileiros em Acra, Gana, os autores Alcione Meira Amos e Ebenezer Ayesu afirmam que alguns dos afro-brasileiros ainda chegaram com habilidades profissionais e dinheiro, recursos que eram bem recebidos pela população local.
“Entre eles, de acordo com documentos encontrados, havia pedreiros, carpinteiros, alfaiates, ferreiros, ourives, escavadores de poços de água potável e famílias com habilidades no cultivo agrícola”, diz a obra.
OS EX-ESCRAVIZADOS QUE VOLTARAM PARA A ÁFRICA E FUNDARAM COMUNIDADE QUE SEGUE TRADIÇÕES BRASILEIRAS

