Me lembro como se fosse ontem da ocasião em que fiz 18 anos. Foi um evento que durou dias! No dia 19 de abril de 2014, chegaram em Curitiba os músicos e pesquisadores Rafael Lo Ré e Tuco Pellegrino para um evento que seria feito em homenagem a este no centro histórico de Curitiba. Juntamente com o pessoal do Samba do Sindicais, recepcionamos eles com muita comida, com destaque ao panelão de galinhada que fora preparado na casa de Elias Fernandes, músico que toca Violão 7 Cordas e que atua em Curitiba — um verdadeiro mago dos arames e das colheres de pau.
No dia seguinte foi o meu aniversário. Então, não só os convidados e o pessoal do Samba do Sindicais, mas também alguns amigos de Santa Catarina se achegaram e o panelão foi feito por Dona Marlene, minha mãe. Para ocasião tivemos feijoada bem servida em um panelão com uma diversidade de saladas e laranjas. Lembro que na ocasião meu avô, quase centenário, se achegou até nós e em volta do panelão fizemos a roda de samba, desenhando um círculo cujo eixo, poderia se dizer, era a própria panela. Contudo, não em termos literais, pois não fizemos a roda em torno da panela. Mas aquela panela com seu conteúdo era o motor que, tal como o eixo, mantinha o movimento daquela roda de samba vivo.
No dia 21, aniversário do querido mano Ivo Queiróz, fizemos a homenagem ao Tuco Pellegrino. O bar estava cheio. Verdadeiramente lotado de gente. A roda se formou e se fez bonita, empolgada. Várias bocas ecoando versos de Tuco Pellegrino em homenagem ao trabalho de pesquisa dele sobre sambas do início do século passado. Formado o círculo alimentado por dois panelões nos dias anteriores, aquela sintonia circular só se desfez por um breve momento com a chegada de seu Benjamim, o meu avô.
No que ele chegou vestido todo de branco, foi um tal de “se arrasta daqui”, “se aperta dali”, “abre mais espaço”, “chegue mais perto” para que o mais velho pudesse se sentar na roda. O mais velho tinha chegado e estava pronto para mostrar para aquele coletivo como uma vida de muitos panelões e muitas rodas poderia contribuir.
No samba, a circunferência das bordas de uma panela somada ao molho abundante de seu conteúdo interno, servem de analogia para a roda se formar. Quem soube compartilhar muitos panelões nessa vida não podia ficar de fora de mais essa roda! Ô lembrança boa essa do seu Benjamim!
(Jeferson da Costa Vaz)

