SAMBA, A FILOSOFIA DO PANELÃO – rosarioitanews

SAMBA, A FILOSOFIA DO PANELÃO

By Rosário FM mar1,2024

    Me lembro como se fosse ontem da ocasião em que fiz 18 anos. Foi um evento que durou dias! No dia 19 de abril de 2014, chegaram em Curitiba os músicos e pesquisadores Rafael Lo Ré e Tuco Pellegrino para um evento que seria feito em homenagem a este no centro histórico de Curitiba. Juntamente com o pessoal do Samba do Sindicais, recepcionamos eles com muita comida, com destaque ao panelão de galinhada que fora preparado na casa de Elias Fernandes, músico que toca Violão 7 Cordas e que atua em Curitiba — um verdadeiro mago dos arames e das colheres de pau.
    No dia seguinte foi o meu aniversário. Então, não só os convidados e o pessoal do Samba do Sindicais, mas também alguns amigos de Santa Catarina se achegaram e o panelão foi feito por Dona Marlene, minha mãe. Para ocasião tivemos feijoada bem servida em um panelão com uma diversidade de saladas e laranjas. Lembro que na ocasião meu avô, quase centenário, se achegou até nós e em volta do panelão fizemos a roda de samba, desenhando um círculo cujo eixo, poderia se dizer, era a própria panela. Contudo, não em termos literais, pois não fizemos a roda em torno da panela. Mas aquela panela com seu conteúdo era o motor que, tal como o eixo, mantinha o movimento daquela roda de samba vivo.
   No dia 21, aniversário do querido mano Ivo Queiróz, fizemos a homenagem ao Tuco Pellegrino. O bar estava cheio. Verdadeiramente lotado de gente. A roda se formou e se fez bonita, empolgada. Várias bocas ecoando versos de Tuco Pellegrino em homenagem ao trabalho de pesquisa dele sobre sambas do início do século passado. Formado o círculo alimentado por dois panelões nos dias anteriores, aquela sintonia circular só se desfez por um breve momento com a chegada de seu Benjamim, o meu avô.
No que ele chegou vestido todo de branco, foi um tal de “se arrasta daqui”, “se aperta dali”, “abre mais espaço”, “chegue mais perto” para que o mais velho pudesse se sentar na roda. O mais velho tinha chegado e estava pronto para mostrar para aquele coletivo como uma vida de muitos panelões e muitas rodas poderia contribuir.
   No samba, a circunferência das bordas de uma panela somada ao molho abundante de seu conteúdo interno, servem de analogia para a roda se formar. Quem soube compartilhar muitos panelões nessa vida não podia ficar de fora de mais essa roda! Ô lembrança boa essa do seu Benjamim!

(Jeferson da Costa Vaz)

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