Primeiro é preciso esclarecer a diferença entre HIV e AIDS: A principal diferença é que o HIV é o vírus causador da infecção, enquanto a aids é a doença em estágio avançado que surge quando o vírus enfraquece muito o corpo. Toda pessoa com aids tem o HIV, mas quem tem HIV não significa que desenvolveu a aids.
Embora o número global de novos casos de HIV tenha caído 42,9% desde 2010, existe um alerta para um risco real de ressurgimento da epidemia em partes do mundo devido a cortes drásticos de verbas internacionais e alta de infecções em 21 países, incluindo o Brasil, que registrou avanço de 21,9% no mesmo período.
Fatores de Risco e Desafios Globais
- Corte de verbas: Redução expressiva no financiamento de doadores externos e de apoio comunitário.
- Queda na prevenção: Redução drástica na distribuição de insumos básicos, como preservativos e acesso a profilaxias.
- Grupos vulneráveis: Impacto severo em serviços voltados para profissionais do sexo, homens gays e sobreviventes de violência de gênero.
Cenário no Brasil
- Contramão mundial: O país integra o grupo de nações com alta superior a 20% nos novos casos na última década.
- Pontos positivos: O país avançou na testagem, atingiu metas de supressão viral e eliminou a transmissão vertical do HIV em gestantes em grande escala.
O alerta de agravamento da AIDS está no relatório especial da UNAIDS – “Unidas e Unidos para acabar com a AIDS”, divulgado pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) durante a 26ª Conferência Internacional de AIDS (AIDS 2026), realizada no Rio de Janeiro.
Segundo o documento, a combinação entre cortes no financiamento internacional, redução dos serviços comunitários e dificuldades de acesso à prevenção pode comprometer décadas de progresso e provocar um ressurgimento da epidemia global de HIV.
Embora as novas infecções e as mortes relacionadas à AIDS estejam nos menores níveis dos últimos 30 anos, o UNAIDS afirma que a resposta global está fragilizada e que o objetivo de acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030 corre risco caso não haja retomada da solidariedade internacional e redução das desigualdades.
Em 2025, foram registradas 1,2 milhão de novas infecções por HIV no mundo e 570 mil mortes relacionadas à AIDS.
Progresso existe, mas é desigual
O relatório mostra que os resultados variam significativamente entre os países.
O relatório destaca que o mundo vive um momento considerado histórico no desenvolvimento de medicamentos preventivos contra o HIV.
Segundo o UNAIDS, novas tecnologias oferecem níveis de proteção comparáveis aos de uma vacina.
Entre os avanços estão:
- medicamentos injetáveis de aplicação mensal;
- medicamentos injetáveis semestrais;
- comprimidos de uso mensal que ainda estão em fase avançada de testes.
Apesar desse cenário, a agência afirma que o principal obstáculo continua sendo garantir que essas tecnologias cheguem às pessoas que mais precisam, porque inovação sem acesso não é inovação, é injustiça. O verdadeiro teste do sucesso não é se os medicamentos existem, mas se as pessoas que precisam deles conseguem obtê-los, e a um preço acessível.”
O relatório cita o Brasil entre os países que ampliaram o acesso à prevenção medicamentosa.
Segundo o documento, o país registrou um aumento de 41% no número de pessoas que utilizaram medicamentos preventivos contra o HIV pelo menos uma vez no último ano.
O novo medicamento Lenacapavir ainda alcança pequena parcela da população por ser muito caro.
Um dos principais alertas do relatório diz respeito ao financiamento internacional.
Segundo o UNAIDS, a assistência oficial ao desenvolvimento entrou em colapso em 2025.
A ajuda internacional destinada ao desenvolvimento caiu 23%, a maior redução já registrada, afetando especialmente a área da saúde global.
A situação é especialmente preocupante para países africanos de baixa renda, muitos dos quais dependiam de recursos externos para financiar mais de 90% de suas ações contra a epidemia. Sem novos investimentos, o UNAIDS afirma que os serviços de prevenção correm risco de colapso.
Em alguns países, o financiamento para preservativos foi reduzido em mais de 90%.
Além da crise financeira, o relatório aponta um aumento da criminalização de populações vulneráveis.
Segundo o UNAIDS, pela primeira vez desde que começou a acompanhar essas tendências, houve crescimento no número de países que criminalizam grupos mais expostos ao HIV.
De acordo com o relatório, atualmente:
- 168 países criminalizam o trabalho sexual;
- 152 países criminalizam a posse de pequenas quantidades de drogas;
- 66 países criminalizam relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo;
- 14 países criminalizam pessoas trans.
“Não é possível acabar com a AIDS enquanto se criminalizam as pessoas que vivem com HIV e aquelas mais vulneráveis à infecção. Quando as pessoas têm medo de prisão, violência ou discriminação, elas se afastam dos serviços de HIV. Os direitos humanos não são algo separado da resposta ao HIV; eles são essenciais para o seu sucesso.”
Novas metas para 2030
Apesar dos desafios, o relatório destaca que, em junho de 2026, 149 Estados-Membros adotaram uma nova Declaração Política sobre HIV e AIDS, alinhada à Estratégia Global para a AIDS 2026-2031.
As metas estabelecidas para 2030 incluem:
- colocar 40 milhões de pessoas em tratamento;
- garantir acesso à prevenção baseada em antirretrovirais para 20 milhões de pessoas;
- reduzir para menos de 10% a proporção de pessoas vivendo com HIV ou em risco que sofram estigma e discriminação;
- reduzir para menos de 10% a proporção de mulheres, meninas e pessoas vivendo com HIV ou em risco expostas à desigualdade de gênero e violência;
- reduzir para menos de 10% o número de países que mantenham legislações e políticas punitivas que limitem o acesso aos serviços de HIV.
Segundo o UNAIDS, o cumprimento integral dessas metas poderá evitar 3,2 milhões de novas infecções e 1,3 milhão de mortes relacionadas à AIDS até 2030.
Ao apresentar o relatório, Winnie Byanyima afirmou que o fim da epidemia ainda é possível, mas depende de decisões tomadas agora. A escolha diante de nós é nítida: recuar e arriscar um ressurgimento da epidemia, ou repensar, reconstruir e avançar para acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030.”
Reportagem completa no G1 -Da Redação

