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APAGAMENTOS DA CONSCIÊNCIA 2

By Rosário FM jan13,2024

Os corpos negros sequestrados na África e transportados ao Brasil, aonde foram criminosamente escravizados, eram portadores das ricas elaborações culturais de sua ancestralidade. Traziam a experiência de conviver em contextos culturais diversos, onde compartilhavam conhecimentos fundamentais. As práticas sociais e os saberes africanos concediam àquelas pessoas o dom de se sentir bem neste mundo, a alegria de viver e conviver com seus pares, de reproduzir suas vidas social e economicamente através de tecnologias, artes, trabalhos e vivências espirituais de elevadas complexidades.
Aquela gente preta, sequestrada e aprisionada durante tormentosas semanas nos porões dos navios negreiros, tristemente descritos nos poemas de Castro Alves, havia aprendido que o mundo e as suas coisas tinham um sentido, que as mulheres, os homens e a diversidade humana também tinham um sentido, que nada estava nesse mundo por acaso. Em sua imensa maioria, acreditavam na presença bondosa das Forças Divinas e desconheciam a ideia de inferno, afinal, os africanos achavam um absurdo Deus criar as pessoas para viverem alguns anos nesta Terra, para depois passarem a eternidade condenadas ao sofrimento .
O tráfico transatlântico de africanos e a criminosa escravização deles nas Américas fizeram parte do maior projeto de enriquecimento da burguesia europeia naquele período histórico. A gente africana passou a ser tratada como mercadoria que se vendia e comprava. Para justificar suas ações, os colonizadores formularam teorias, leis e desenvolveram condutas rigorosas para subjugar, controlar e explorar sua força de trabalho. Durante quase quatrocentos anos, a gente negra viveu em estado de sítio, sendo vigiada e perseguida, quando fugia daquele cativeiro.
Para conter o ímpeto de libertação da gente negra escravizada, a sociedade escravista produziu muitas técnicas de administração social que incluíam instrumentos de tortura, proibição da alfabetização de pessoas negras, a separação das famílias de pretos e a imposição da religião católica, dentre outras. “Sabei que o papa já pediu perdão”, cantou Gilberto Gil , lembrando que os católicos comandaram aquele processo colonizador, de triste memória. Contudo, a mais perversa política colonial parece ter sido a elaboração da mentirosa superioridade da gente branca escravista e a inferiorização da gente negra escravizada. Esta hierarquização social baseada na brancura e na negrura da pele e tudo o que estes marcadores epidérmicos poderiam significar em termos culturais e sociais deixaram um legado deletério na sociedade brasileira e no resto do mundo. A partir da inferiorização do povo negro e da imposição da superioridade dos brancos europeus, desenvolveram-se os dolorosos mecanismos psicológicos e sociais de desprezo às realizações culturais dos povos africanos e seus descendentes e a idolatria da brancura e das realizações dos brancos europeus.
Os movimentos da consciência negra trabalham tenazmente no combate a essa alienação e perda da memória da dignidade e humanidade da gente negra, em prol da restauração da justiça e da verdade histórica.


Ivo Queiroz _ Curitiba, 13jan2024

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