Jeferson da Costa Vaz
Não diferente de outras investidas intelectuais acerca de temas diversos, quando pensamos em filosofia e samba também nos situamos diante de questionamentos. Afinal, o samba é filosofia ou podemos pensar apenas em temos de samba e filosofia? Se o samba é filosofia, então significa que encontramos no samba um tipo de saber que promove a crítica e o questionamento sobre a realidade e que dessa crítica e questionamento pode ler a realidade de certas maneiras que antes, sem a provocação do ritmo marcado pelo surdo e tamborim, não seriam possíveis.
Em verdade, a esses questionamentos acerca de ser o samba uma filosofia ou se o samba pode ser visto acompanhado, conjugado da filosofia preciso ser honesto em confessar que as duas coisas estão corretas. O samba é filosofia, mas, corrigindo o meu equívoco, não apenas uma filosofia, mas a expressão de várias. Além disso, podemos falar de “samba e filosofia”, pois não raramente as mestras e os mestres do samba promoveram debates sobre a filosofia e fizeram do samba o seu meio de promoção de um debate público.
Em que sentido o samba pode ser observado como algo que acompanha e que é adicional à filosofia? No sentido de Chico Brito de Wilson Baptista e Afonso Teixeira (Odeon, outubro de 1950). Trata-se de uma narrativa de uma personagem do morro que, diante das mudanças sociais, acaba seguindo a tendência de buscar meios ilegais e imorais para manter a sobrevivência. Como disseram os compositores, “Chico Brito fez do baralho o seu melhor esporte, é valente do morro e dizem que fuma uma erva do norte” (1950). É um samba que tem uma filosofia como algo adicional, principalmente quando a tese de Chico Brito reitera o que já havia sido dito pelo filósofo Jean-Jacques Rousseau (1712—1778), a saber: “Se o homem nasceu bom e bom não se conservou / A culpa é da sociedade que o transformou” (Baptista; Teixeira, 1950).
De que modo podemos pensar que o samba é filosofia? Podemos tomar esse samba mesmo como exemplo. O que estaria fazendo Wilson Baptista senão resgatando a prática ancestral da oralidade já presente em África com djelis, griots e griottes para difundir uma crítica social a serviço do seu povo? Acredito que há uma continuidade da prática de griots e griottes, oradores responsáveis por difundir histórias, críticas, notícias no continente Africano (principalmente na África Oriental) em Wilson Baptista e em demais mestres e mestras do samba.
É tão filosófico pensar que o samba é filosofia que, se notarmos atentamente a palavra Djeli é traduzida como sangue. Pois as pessoas incumbidas da função Djeli têm a função de movimentar as ideias mediante a oralidade. Disso se segue a necessidade de um compromisso com a verdade, pois a mentira seria uma “lepra moral” (2010) — como sugeriu Amadou Hampâté Bâ — que contaminando o sangue do corpo social, levaria esse mesmo corpo a perda de seu dinamismo vital.
Por que o samba é filosofia? Pela via de que se apresenta como a Voz do Morro (Zé Keti, 1971) e, segundo a conceptualização do próprio Wilson Baptista, o samba é A voz do Sangue (Odeon, dezembro de 1941). No colocando diante de um dilema vivido por um sambista diante da necessidade de frequentar ou não os ambientes sambísticos, o mestre narrou:
Eu preciso mudar o meu ritmo de vida
Mas não posso o samba não quer me deixar
Fico louco quando escuto um tamborim
É a voz do sangue que fala dentro de mim!
O samba é a voz do sangue, é a voz do morro, é a voz de Chico Brito, é a voz do “crioulo do morro [que] está invocado” pois quando “Desce o morro [e] não encontra trabalho, então volta pro baralho, e encontra feijão para comer” — citando Candeia (1978). Não se trata do mesmo Chico Brito, tampouco do ser humano concebido por Rousseau. Mas de uma voz do sangue que partilha de um similar horizonte problemático para se fazer circular mediante uma crítica social. Ou seja, mesmo não sendo Chico Brito ou Rousseau, é a voz do sangue. É, portanto, similar ao que compreendemos como Djeli, uma prática enraizada na oralidade compreendida como uma tecnologia ancestral.

