QUANDO A TERRA IMPÕE SEUS LIMITES – rosarioitanews

QUANDO A TERRA IMPÕE SEUS LIMITES

By Rosário News ago2,2026

A crise climática escancara-se em todo o mundo. Um sistema que sonha com a expansão e o lucro infinitos converteu em desastre a energia abundante. Para restabelecer o equilíbrio rompido, sociedades precisarão ir além dos mercados. Haverá tempo, sabedoria e estratégia?

Parte inferior do formulário

Entendemos que as mudanças climáticas deixaram de ser um problema do futuro para se tornarem um dos maiores desafios do presente. Eventos hidrometeorológicos extremos cada vez mais intensos e mais frequentes colocam a questão climática na ordem do dia, não mais apenas para cientistas e professores de Geografia, mas para gestores, formuladores de políticas públicas e principalmente para movimentos sociais, povos originários e comunidades tradicionais e periféricas. Episódios cada vez mais fortes e recorrentes de ondas de calor, estiagens, acumulados de chuva concentrados, bloqueios atmosféricos, tempestades, tornados, micro-explosões e suas respostas na superfície (deslizamentos e movimentos de massa em áreas de encostas, enxurradas em áreas de vales estreitos, inundações em planícies e várzeas, alagamentos repentinos nas cidades, rompimentos e bloqueios de estradas, destelhamentos de casas, queda de árvores, grandes incêndios na vegetação e, a médio e longo prazo, perda de biodiversidade e alterações nas condições da produção de alimentos) evidenciam a realidade das mudanças climáticas, contrariando os negacionistas da ciência e mostrando àqueles que relativizam seus efeitos que o chamado ‘novo normal’ não poupa nenhum lugar do mundo, em que pese ficar mais evidente nos países periféricos e, sobretudo, nas comunidades mais vulneráveis.

É importante lembrar que esses fenômenos sempre fizeram parte da dinâmica da Terra e foram responsáveis por mudanças no clima que moldaram a evolução da vida e das paisagens nos continentes. Mas, o que está em curso agora não é apenas uma mudança nas médias de temperatura global, mas uma transformação rápida e profunda das condições ecológicas que, ao longo dos últimos milhares de anos, permitiram o avanço das inter-relações entre sociedades humanas e a natureza, deixando como herança um conjunto de paisagens e formas de vida que sustentaram, até então, as condições socioambientais que ainda mantém nossa espécie sobre a Terra.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), responsável por sintetizar milhares de pesquisas produzidas em diferentes países, concluiu em seu Sexto Relatório de Avaliação que é inequívoca a influência humana sobre o aquecimento da atmosfera, dos oceanos e da superfície terrestre (IPCC, 2023). Poucas vezes na história da ciência houve tamanho consenso em torno de um problema de dimensão planetária. Esse conhecimento (não uma mera opinião) foi construído ao longo de décadas.
A explicação científica desse processo é relativamente simples. A atmosfera contém gases capazes de conter o calor, absorvendo parte da radiação infravermelha emitida pela superfície terrestre. Esse mecanismo, conhecido como efeito estufa, é indispensável para a vida, pois mantém a temperatura média do planeta em torno de 14°C a 15°C. Sem ele, a Terra apresentaria temperaturas próximas de -18°C e há dúvidas se teríamos formas de vida na Terra. O problema, portanto, não é o efeito estufa, mas sim sua intensificação, provocada pelo aumento da concentração de gases como dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄) e óxido nitroso (N₂O).

Antes da chamada ‘Revolução Industrial’, a concentração atmosférica de dióxido de carbono era de aproximadamente 280 partes por milhão (ppm). Atualmente ela ultrapassa 430 ppm, alcançando níveis sem precedentes na história recente do planeta (NOAA, 2025). O dióxido de carbono permanece na atmosfera durante décadas e até séculos, tornando-se o principal responsável pelo aquecimento acumulado. O metano, originado principalmente pela atividade agropecuária, permanece menos tempo, cerca de doze anos, porém possui um potencial de aquecimento muito superior no curto prazo. Já o óxido nitroso, proveniente principalmente da agricultura intensiva e de determinados processos industriais, como a produção de substâncias utilizadas na fabricação de fertilizantes sintéticos, combina elevada permanência atmosférica com grande capacidade de retenção de calor (IPCC, 2023).
Hoje já dispomos de conhecimento suficiente para compreender as causas da crise, mas as elites empresariais e os donos do poder seguem ampliando as emissões globais de gases de efeito estufa, modificando a cobertura do solo (e com isso a dinâmica atmosférica em escala regional), vulnerabilizando comunidades e, o pior de tudo, transferindo responsabilidades e inventando falsos culpados em situações de desastres ocasionados por eventos extremos.

No Brasil, essa discussão assume características particulares. Diferentemente de muitos países industrializados há mais tempo, onde predominam as emissões associadas ao setor energético, parcela significativa das emissões brasileiras decorre do desmatamento, das mudanças no uso da terra e da agropecuária. Com parte significativa da floresta perdendo sua capacidade de reciclar umidade por meio dos chamados rios voadores, os impactos tendem a comprometer a agricultura, a geração de energia hidrelétrica, o abastecimento de água e o próprio regime de chuvas em grande parte da América do Sul, especialmente no sul do Brasil.
Compreender essa realidade exige evitar simplificações. Não existe uma única agricultura, mas diferentes formas de produzir alimentos, organizar o território e relacionar-se com a natureza. A expansão de monoculturas, a elevada dependência de fertilizantes sintéticos, o crescimento da pecuária intensiva e a conversão de florestas em áreas agrícolas constituem importantes fontes de emissões. Contraditoriamente, o próprio setor agropecuário torna-se um dos mais vulneráveis às mudanças climáticas.
De acordo com Eduardo Delgado Assad, o aumento das temperaturas, a alteração dos regimes de chuva e a maior frequência de eventos extremos já afetam culturas agrícolas em diferentes regiões brasileiras, exigindo profundas adaptações produtivas. Agricultura e clima estabelecem, portanto, uma relação de dupla causalidade: determinados sistemas produtivos contribuem para o aquecimento global e, simultaneamente, sofrem seus efeitos.

Esse debate ganha ainda mais relevância em um ano cujas previsões indicam a possibilidade de formação de um ‘Super’ El Niño. Em síntese, o El Niño é um fenômeno cíclico de variabilidade climática natural, identificável pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacifico em sua faixa tropical. No Brasil, os impactos do fenômeno costumam ser redução de chuvas e elevação das temperaturas no Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste; baixa umidade do ar e ondas de calor no Sudeste e Centro-Oeste; e um aumento da frequência e intensidade de chuvas no Sul, podendo refletir em deslizamentos, enxurradas e inundações, além de fenômenos atmosféricos associados ao alto grau de energia na atmosfera (tempestades, tornados, micro-explosões, etc).

Tratar a natureza como algo alheio à sociedade é uma engrenagem ideológica que, além de ser um equívoco teórico, pavimenta o caminho para destruição mundial. O encurtamento do tempo entre eventos extremos nos coloca diante de um dilema civilizatório no qual precisamos decidir se mantemos a ilusão de um “desenvolvimento infinito” regido pela métrica do lucro, ou se escutamos a ciência e os saberes ancestrais que apontam para a coexistência. Não é de se esperar que uma verdadeira e eficiente transição político-ecológica venha de gabinetes que pacificam a vida ou estabelecem como objetivo a hegemonia. O que precisamos é de coragem para reconfigurar nossa presença no planeta.

Reportagem completa em outraspalavras.net
Foto: Valerie Gache / AFP – Getty Images file

Resumo da Redação – Dito Ballio

Related Post

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *