Relatório fruto das investigações comprovam: 8 de janeiro não foi um piquenique – rosarioitanews

Relatório fruto das investigações comprovam: 8 de janeiro não foi um piquenique

By Rosário FM jan7,2024

Trechos desse relatório estão entre aspas. Ele cita a participação de ex-paraquedistas, apelidados de “boinas vermelhas”, armados e bem treinados”. Esses homens foram os responsáveis pela montagem e organização dos acampamentos nas portas dos quartéis. Os mesmos que o ministro Múcio disse ter sido frequentado por “amigos e parentes” dele. E que os comandos das Forças Armadas em nota no dia 11 de novembro daquele ano (2022), defendeu como “manifestações pacíficas”.
Esse grupo participou do movimento que montou acampamento em frente ao Quartel General do Exército, em Brasília. E, antes mesmo do 8 de janeiro, já estavam sendo monitorados. “A presença desse grupo extremista na capital federal eleva o risco de ocorrência de ações violentas na posse presidencial, a ser realizada em 1 º de janeiro de 2023”, alertaram os serviços de inteligência. Segundo esse trabalho, “o grupamento “não tem nome oficial ou estrutura centralizada, sendo composto por reservistas autônomos que compartilham posição político-ideológica semelhante, discurso radical de deslegitimação do Estado de Direito e propensão à ação violenta. Seus membros se identificam como militares da reserva das Brigadas de Infantaria Paraquedista do Exército Brasileiro (EB). Alguns deles estavam nas proximidades da sede da Polícia Federal, no Setor Comercial Norte de Brasília, na noite de 12 dez. 2022, quando houve tentativa de invasão do órgão policial”.
“Os Boinas Vermelhas já estiveram presentes em outras manifestações em Brasília. No feriado do Dia da Independência em 2021 e nos dias que se seguiram, o grupo incitou manifestantes à desordem e promoveu tentativas de ultrapassar barreiras de contenção montadas por forças policiais na Esplanada dos Ministérios. Em certos momentos, integrantes do grupo buscaram assumir a liderança das manifestações, coordenando a segurança das pessoas e, por vezes, mediando a comunicação com representantes do governo federal, do governo do Distrito Federal e das forças de segurança”.
Em evento anterior, em março de 2021, no Rio de Janeiro/RJ, seus integrantes apresentaram discurso contrário a partidos e ideologias de esquerda e se mostraram dispostos a pegar em armas para manter o Brasil “livre de um governo comunista”.
Em 7 de setembro de 2022, no Rio de Janeiro, quando as intenções golpistas estavam mais visíveis – a cúpula militar chegou a encomendar um estudo à FGV, para avaliar se o golpe era viável e se haveria adeptos.
Os investigadores constataram que um dos líderes Boinas Vermelhas é o militar da reserva Marcelo Soares Correa. Ele estava presente na ocupação da Praça dos Cristais, em frente ao QGEx, em Brasília. Ele organizou e integrou manifestações contrárias à mudança de governo no Brasil após as eleições de 2022. Em 16 de novembro de 2022, Correa participou da invasão do plenário da Câmara dos Deputados com um grupo de 50 manifestantes que pediam intervenção militar. No vídeo, uma declaração inflamada e de clara incitação à violência, alegava que, a partir de então, seria iniciada uma nova fase dos atos de protestos, pois o povo estava inflamado e não iria entregar o país ao “crime político organizado”. Alertou, ainda que, se a salvação não viesse ” pelo amor”, seria “pela dor”, e não iria “arregar para os comunistas”. Ainda assim, monitorado, com a Polícia sabendo dos seus passos e intenções, continuou circulando à vontade, prosseguindo com suas atividades no acampamento. Essa inação quanto ao Cabo Correa, nos leva a concluir o nível de tolerância (ou talvez divisão) que havia na Polícia do Distrito Federal, quanto à perspectiva de golpe.
É difícil acreditar ou até mesmo entender, como um movimento com este teor circulasse livremente e se organizasse sem ser incomodado pela PF ou quem quer que seja. Seria preciso que os estamentos das várias Polícias estivessem mesmo muito contaminados, para não agir, não coibir, não desbaratar um movimento dessa natureza.
Num trecho do relatório do dia 22 de dezembro de 2022 consta que “o movimento atualmente apresenta baixo nível de mobilização para participação em manifestações sociais, mas chegou a montar acampamentos em São Paulo e em Brasília. Os membros do movimento têm níveis de radicalização variados e alguns ainda representam ameaça.”
A descrição sobre o grupo prossegue: “Seus membros expressam discurso de ruptura constitucional e demonstram disposição para envolvimento em ações violentas. Além disso, cultivam imagem de prontidão (o sempre alerta, na linguagem militar), de que aguardam uma suposta ordem presidencial que os acionem. O grupo estaria estocando combustível na tenda em frente ao QGEx”. (Não fica claro para qual finalidade seria usada essa gasolina).
Chama a atenção que no conteúdo desse relatório – o do dia 22 de dezembro de 2022 -, estivesse contido o seguinte trecho: “A presença do grupo na capital federal eleva o risco de ocorrência de ação violenta com potencial de impactar a posse do presidente eleito. Avalia-se que o grupo tenha capacidade, motivação e meios para planejar, executar ou prestar suporte a um ato extremista violento. Ademais, pode atuar como indutor de atos de vandalismo e obter a adesão de participantes da ocupação que originalmente não demonstravam propensão à violência”. Ou seja, incitar a todos do acampamento, a aderirem aos seus propósitos golpistas.
Perguntas que ficam: o que foi feito desse feixe de informações da maior importância para o governo que assumia? Qual foi o destino dado às questões levantadas nesse relatório consolidado pela Abin, que apontava para o risco iminente de ataques ao presidente eleito? Os responsáveis pela transição leram esse potencial de ameaça? Os responsáveis pela segurança do presidente que chegava, tomaram alguma providência para assegurar que os “boinas vermelhas” não prosseguissem com as suas ações no acampamento do QG do Exército? O Comando do Exército sabia o que se passava em seu quintal? Se sabia, foi complacente ou leniente com esses “reservistas” que saídos das suas fileiras usavam os treinamentos e ensinamentos recebidos para golpear a democracia? São muitas as perguntas, poucas as respostas e muito a elucidar e entender.

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