{"id":8444,"date":"2026-08-02T20:11:45","date_gmt":"2026-08-02T23:11:45","guid":{"rendered":"https:\/\/rosarioitanews.com.br\/index2.php\/?p=8444"},"modified":"2026-08-02T20:11:45","modified_gmt":"2026-08-02T23:11:45","slug":"enfermagem-a-base-do-sus-esta-adoecida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rosarioitanews.com.br\/index2.php\/enfermagem-a-base-do-sus-esta-adoecida\/","title":{"rendered":"ENFERMAGEM: A BASE DO SUS EST\u00c1 ADOECIDA"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Na pandemia, receberam aplausos. Mas seu trabalho tarda em ser reconhecido: piso salarial n\u00e3o garante jornadas menores, OSs as empurram para a precariza\u00e7\u00e3o, m\u00faltiplos v\u00ednculos as mant\u00eam exaustas. Um apelo: \u201cGostaria que f\u00f4ssemos ouvidas\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por&nbsp;<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/author\/glaucofaria\/\">Glauco Faria<\/a> &#8211; 30\/07\/2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 21 de mar\u00e7o de 2020, dezenas de cidades brasileiras registraram \u00e0 noite pessoas aplaudindo das janelas os profissionais de sa\u00fade que estavam na linha de frente do combate \u00e0 pandemia de covid-19, ainda em seu est\u00e1gio inicial no pa\u00eds. \u00c0quela altura, enfermeiros, t\u00e9cnicos e auxiliares de enfermagem tornaram-se s\u00edmbolos de resist\u00eancia de uma trag\u00e9dia sanit\u00e1ria que matou, segundo n\u00fameros oficiais, mais de 700 mil pessoas em territ\u00f3rio nacional, ceifando a vida de centenas desses profissionais, infectados na rotina do cuidado e exauridos pelo esfor\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia como aquela exigiu a mobiliza\u00e7\u00e3o de in\u00fameras pessoas na \u00e1rea, inclusive daquelas que n\u00e3o estavam trabalhando no momento. \u201cFui convocada pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade para atuar contra a covid-19 no in\u00edcio de 2020. Lembro bem, era \u00e0 noite em Manaus, por volta das 22h no hor\u00e1rio local, e eu j\u00e1 estava me preparando para dormir quando recebi uma liga\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio\u201d, conta a enfermeira&nbsp;Adriane Arag\u00e3o, que trabalhou em uma das cidades que sofreria mais com a dissemina\u00e7\u00e3o do coronav\u00edrus. Adriane foi parar no Hospital de Campanha Newton Lins, onde atuou na primeira ala voltada especificamente aos povos ind\u00edgenas. Ali, a falta de pessoal foi um problema constante durante o per\u00edodo cr\u00edtico da pandemia. \u201cHavia dias em que minha equipe, que contava com v\u00e1rios t\u00e9cnicos de enfermagem, ficava reduzida a apenas quatro, porque muitos adoeciam ou eram remanejados para outros setores mais necessitados.\u201d Seu corpo registrou o esfor\u00e7o intenso daquele per\u00edodo. \u201cEu usava o pijama cir\u00fargico tamanho m\u00e9dio e, ao final daquele per\u00edodo, j\u00e1 estava usando P, de tanta correria.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o com a contamina\u00e7\u00e3o era constante, tanto no trabalho quanto em casa. \u201cMinha maior preocupa\u00e7\u00e3o era com a fam\u00edlia. Eu era casado na \u00e9poca e vivia com medo de chegar em casa e acabar transmitindo a doen\u00e7a\u2019, relata Rodrigo Bizacho, auxiliar de enfermagem no Hospital S\u00e3o Paulo, detalhando a rotina rigorosa de higiene para proteger os seus.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O desgaste no per\u00edodo, tanto f\u00edsico quanto psicol\u00f3gico, foi a t\u00f4nica para muitos trabalhadores da \u00e1rea. 62,1% dos profissionais de enfermagem dizem ter tido algum tipo de sofrimento mental durante a pandemia. 70,2% apresentaram sintomas f\u00edsicos como fraqueza, tonturas, dores em geral, problemas para respirar, dorm\u00eancia, formigamentos, dificuldade de concentra\u00e7\u00e3o e esgotamento f\u00edsico. J\u00e1 64,5% relataram sintomas emocionais, como medo, sentimentos de culpa, p\u00e2nico e esgotamento mental e pensamentos negativos.<br>A enfermagem, em si, foi muito afetada psicologicamente, porque era o principal elo de contato com todos os pacientes. Isso mexeu muito com a cabe\u00e7a das pessoas, ver colegas e familiares morrendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Um outro levantamento, baseado em um cruzamento de dados oficiais produzidos pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e pelo Minist\u00e9rio do Trabalho, apontou que entre o in\u00edcio da pandemia e o final de 2021, a covid-19 matou no Brasil mais de 4.500 profissionais da sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>A luta pelo piso salarial &#8211; \u201cO reconhecimento que n\u00f3s tivemos durante a pandemia veio da popula\u00e7\u00e3o em geral, mas n\u00e3o foi refletido pelos governos e pelas gest\u00f5es tanto p\u00fablicas quanto privadas\u201d, resume&nbsp;Ludmila Outtes, presidenta do Sindicato dos Enfermeiros de Pernambuco (SEEPE). \u201cComo v\u00e1rios colegas falam, aplauso n\u00e3o enche barriga, aplauso n\u00e3o paga conta.\u201d A afirma\u00e7\u00e3o de Outtes encontra eco em uma luta hist\u00f3rica dos profissionais da \u00e1rea pela implementa\u00e7\u00e3o do Piso Nacional de Enfermagem. No Congresso Nacional uma das primeiras propostas foi protocolada em 1989, com o Projeto de Lei 4499, da deputada federal Benedita da Silva, e se voltava naquele momento apenas para enfermeiros. Mais tarde, com dois projetos distintos, de 2009 e 2015, o piso salarial da enfermagem voltou a ser tema legislativo, mas a categoria s\u00f3 conseguiu \u00eaxito no Parlamento com a aprova\u00e7\u00e3o do PL 2564\/2020, de autoria do senador Fabiano Contarato (PT-ES), que estabelecia o piso salarial \u00e0 jornada semanal de trabalho de 30 horas. Essa \u00e9 a quantidade trabalhada de horas ideal recomendada pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) e pela Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT). Embora o projeto tenha sido aprovado e depois sancionado como Lei 14.434\/2022, sofreu mudan\u00e7as importantes durante sua tramita\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 com a redu\u00e7\u00e3o dos valores iniciais como tamb\u00e9m com a desvincula\u00e7\u00e3o da jornada. O valor estabelecido foi de R$ 4.750 para enfermeiros, R$ 3.325 para t\u00e9cnicos e R$ 2.375,00 para auxiliares e parteiras. Mesmo assim, a Confedera\u00e7\u00e3o Nacional de Sa\u00fade (CNSa\u00fade), que atua pelos interesses dos empres\u00e1rios da sa\u00fade privada, entrou com uma A\u00e7\u00e3o Direta de Inconstitucionalidade junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), alegando riscos de demiss\u00e3o e falta de defini\u00e7\u00e3o de fontes de custeio nos setores p\u00fablico e privado. Em setembro de 2022, o ministro Lu\u00eds Roberto Barroso concedeu uma liminar que suspendia os efeitos do piso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"366\" height=\"217\" src=\"blob:https:\/\/rosarioitanews.com.br\/37612474-31a6-4701-90e4-1a37006c3c76\"><br>Foto: Marcelo Camargo\/Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n\n\n\n<p>Posteriormente, a Corte estabeleceu crit\u00e9rios para a aplica\u00e7\u00e3o, com a determina\u00e7\u00e3o que o governo federal prestasse assist\u00eancia financeira complementar para redes estaduais, municipais e entidades filantr\u00f3picas que atendessem pelo menos 60% dos pacientes pelo SUS. Nesse sentido, o Legislativo ainda aprovou duas Propostas de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o para preservar os direitos dos profissionais. J\u00e1 na iniciativa privada, ficou determinada a necessidade de negocia\u00e7\u00e3o coletiva pr\u00e9via entre patr\u00f5es e empregados ou decis\u00e3o em diss\u00eddio na Justi\u00e7a do Trabalho no caso de impasse. O julgamento do m\u00e9rito da a\u00e7\u00e3o foi paralisado em maio deste ano ap\u00f3s um pedido de vista do ministro Luiz Fux, com votos j\u00e1 registrados de Barroso, hoje aposentado, e Dias Toffoli.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A engenharia constitucional resolveu o problema do financiamento apenas no papel. Na pr\u00e1tica, a categoria segue crescendo em n\u00fameros e perdendo prote\u00e7\u00e3o. O estudo \u201c<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrasaude\/o-que-mostra-o-novo-retrato-da-enfermagem-brasileira\/\">Demografia e Mercado de Trabalho em Enfermagem no Brasil<\/a>\u201d, elaborado pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade em parceria com pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mostra que o contingente de profissionais cresceu mais de 2,5 vezes entre 2010 e 2021. Hoje, a enfermagem responde por 70% de toda a for\u00e7a de trabalho em sa\u00fade do pa\u00eds, contra 59% na m\u00e9dia global. \u00c9, ao mesmo tempo, a espinha dorsal do sistema e a categoria mais exposta \u00e0 precariza\u00e7\u00e3o que o sustenta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA enfermagem \u00e9 uma profiss\u00e3o superexplorada desde a sua forma\u00e7\u00e3o e constitui\u00e7\u00e3o como campo, de um lugar colocado para as pessoas que iriam executar tarefas muito mais do que pensar o que fazer\u201d, explica&nbsp;K\u00eania Lara da Silva, da Escola de Enfermagem da UFMG e uma das integrantes da equipe de coordena\u00e7\u00e3o do estudo. A for\u00e7a de trabalho em enfermagem \u00e9 87% feminina, com um crescimento de homens na profiss\u00e3o de 5,5% ao ano, ainda insuficiente para alterar essa maioria.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00edgia Sim\u00f5es Ferreira, enfermeira nefrologista e doutoranda pela UFSCar, descreve a romantiza\u00e7\u00e3o do cuidado como voca\u00e7\u00e3o. \u201cPersiste uma romantiza\u00e7\u00e3o absurda: a ideia de que a gente \u2018trabalha por amor\u2019, que n\u00e3o \u00e9 vista como profissional, mas como figura materna. Isso \u00e9 usado para justificar a precariza\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A rotina da precariza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O piso n\u00e3o pago \u00e9 apenas a ponta mais vis\u00edvel de um sistema de contrata\u00e7\u00e3o que ajuda a fragilizar os v\u00ednculos trabalhistas. \u201cExiste essa quest\u00e3o da privatiza\u00e7\u00e3o disfar\u00e7ada, por meio da terceiriza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se entrega diretamente o hospital para a iniciativa privada, mas indiretamente sim, porque, apesar dele permanecer p\u00fablico para a popula\u00e7\u00e3o, \u00e9 gerenciado por uma empresa privada\u201d, aponta Ludmila Outtes, ressaltando um outro problema que aparece nesse contexto. O sofrimento gerado pela deteriora\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho vem sendo explicitado em v\u00e1rios estudos e tamb\u00e9m pelo aumento do n\u00famero de den\u00fancias feitas pelos profissionais da sa\u00fade sobre as diversas formas de precariza\u00e7\u00e3o do trabalho no setor\u201d, pontuou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO Estado repassa o recurso para que as OSs, ou outra forma de parceria p\u00fablico-privada, fa\u00e7am a gest\u00e3o dos servi\u00e7os de sa\u00fade. O Estado financia, o mercado intermedia e a ponta precariza\u201d, resume a pesquisadora Isabela Cardoso Pinto Isabela. L\u00edgia Ferreira detalha como essa l\u00f3gica se traduz em sal\u00e1rio. \u201cQuando uma OS entra num hospital universit\u00e1rio, ela elimina os concursos p\u00fablicos. A enfermagem \u00e9 uma categoria que, quando abre uma vaga numa prefeitura do interior, mil enfermeiras concorrem. Isso cria um cen\u00e1rio de explora\u00e7\u00e3o que muitos nem percebem\u201d, conta.<br>\u201cQuando a gente tem essa proposi\u00e7\u00e3o da sa\u00fade como direito, mas essa sa\u00fade sendo assistida por trabalhadores em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, isso \u00e9 uma grande contradi\u00e7\u00e3o que precisamos enfrentar para pensar a sustentabilidade do sistema, a continuidade do cuidado e a defesa dos princ\u00edpios constitucionais que s\u00e3o t\u00e3o caros para n\u00f3s.\u201d, observa K\u00eania Lara da Silva.<\/p>\n\n\n\n<p><img decoding=\"async\" width=\"308\" height=\"148\" src=\"blob:https:\/\/rosarioitanews.com.br\/865a8e71-6341-408a-b8e6-65316703e4d1\"><br>Imagem: Outra Sa\u00fade<\/p>\n\n\n\n<p>Diante do cen\u00e1rio, os profissionais muitas vezes t\u00eam que enfrentar a hostilidade da popula\u00e7\u00e3o. \u201cMuitas vezes somos muito hostilizados, a ponto de agress\u00f5es verbais e f\u00edsicas. Isso se tornou rotina. Principalmente porque, na maioria das unidades toda demanda livre passa primeiro pelo enfermeiro. Na aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, precisamos encaminhar muitos pacientes para especialistas. Eles n\u00e3o entendem a demora. E quando o paciente vai para o especialista na rede secund\u00e1ria, ele volta com uma bateria de exames para ser solicitada para investigar o problema. Isso \u00e9 uma saga para o paciente e para a gente\u201d relata uma enfermeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem in\u00fameros problemas na \u00e1rea, mas talvez um passo fundamental para aprofundar as mudan\u00e7as necess\u00e1rias para a carreira de enfermagem seja o que diz uma enfermeira: \u201cO que eu gostaria que mudasse? \u00c9 que nos ouvissem. Para voc\u00ea entender, tem que se colocar no lugar do profissional, para saber o que est\u00e1 acontecendo, para buscar solu\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Foto de capa: Paula Fr\u00f3es\/Governo da Bahia<br>Da Reda\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Reportagem completa em: outraspalavras.net<br><br><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na pandemia, receberam aplausos. Mas seu trabalho tarda em ser reconhecido: piso salarial n\u00e3o garante jornadas menores, OSs as empurram para a precariza\u00e7\u00e3o, m\u00faltiplos v\u00ednculos as mant\u00eam exaustas. 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