{"id":8441,"date":"2026-08-02T19:42:14","date_gmt":"2026-08-02T22:42:14","guid":{"rendered":"https:\/\/rosarioitanews.com.br\/index2.php\/?p=8441"},"modified":"2026-08-02T19:42:15","modified_gmt":"2026-08-02T22:42:15","slug":"quando-a-terra-impoe-seus-limites","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rosarioitanews.com.br\/index2.php\/quando-a-terra-impoe-seus-limites\/","title":{"rendered":"QUANDO A TERRA IMP\u00d5E SEUS LIMITES"},"content":{"rendered":"\n<p><em>A crise clim\u00e1tica escancara-se em todo o mundo. Um sistema que sonha com a expans\u00e3o e o lucro infinitos converteu em desastre a energia abundante. Para restabelecer o equil\u00edbrio rompido, sociedades precisar\u00e3o ir al\u00e9m dos mercados. Haver\u00e1 tempo, sabedoria e estrat\u00e9gia?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Parte inferior do formul\u00e1rio<\/p>\n\n\n\n<p>Entendemos que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas deixaram de ser um problema do futuro para se tornarem um dos maiores desafios do presente. Eventos hidrometeorol\u00f3gicos extremos cada vez mais intensos e mais frequentes colocam a quest\u00e3o clim\u00e1tica na ordem do dia, n\u00e3o mais apenas para cientistas e professores de Geografia, mas para gestores, formuladores de pol\u00edticas p\u00fablicas e principalmente para movimentos sociais, povos origin\u00e1rios e comunidades tradicionais e perif\u00e9ricas. Epis\u00f3dios cada vez mais fortes e recorrentes de ondas de calor, estiagens, acumulados de chuva concentrados, bloqueios atmosf\u00e9ricos, tempestades, tornados, micro-explos\u00f5es e suas respostas na superf\u00edcie (deslizamentos e movimentos de massa em \u00e1reas de encostas, enxurradas em \u00e1reas de vales estreitos, inunda\u00e7\u00f5es em plan\u00edcies e v\u00e1rzeas, alagamentos repentinos nas cidades, rompimentos e bloqueios de estradas, destelhamentos de casas, queda de \u00e1rvores, grandes inc\u00eandios na vegeta\u00e7\u00e3o e, a m\u00e9dio e longo prazo, perda de biodiversidade e altera\u00e7\u00f5es nas condi\u00e7\u00f5es da produ\u00e7\u00e3o de alimentos) evidenciam a realidade das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, contrariando os negacionistas da ci\u00eancia e mostrando \u00e0queles que relativizam seus efeitos que o chamado <strong>\u2018novo normal\u2019<\/strong> n\u00e3o poupa nenhum lugar do mundo, em que pese ficar mais evidente nos pa\u00edses perif\u00e9ricos e, sobretudo, nas comunidades mais vulner\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante lembrar que esses fen\u00f4menos sempre fizeram parte da din\u00e2mica da Terra e foram respons\u00e1veis por mudan\u00e7as no clima que moldaram a evolu\u00e7\u00e3o da vida e das paisagens nos continentes. Mas, o que est\u00e1 em curso agora n\u00e3o \u00e9 apenas uma mudan\u00e7a nas m\u00e9dias de temperatura global, mas uma transforma\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e profunda das condi\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas que, ao longo dos \u00faltimos milhares de anos, permitiram o avan\u00e7o das inter-rela\u00e7\u00f5es entre sociedades humanas e a natureza, deixando como heran\u00e7a um conjunto de paisagens e formas de vida que sustentaram, at\u00e9 ent\u00e3o, as condi\u00e7\u00f5es socioambientais que ainda mant\u00e9m nossa esp\u00e9cie sobre a Terra.<\/p>\n\n\n\n<p>O Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC), respons\u00e1vel por sintetizar milhares de pesquisas produzidas em diferentes pa\u00edses, concluiu em seu Sexto Relat\u00f3rio de Avalia\u00e7\u00e3o que \u00e9 inequ\u00edvoca a influ\u00eancia humana sobre o aquecimento da atmosfera, dos oceanos e da superf\u00edcie terrestre (IPCC, 2023). Poucas vezes na hist\u00f3ria da ci\u00eancia houve tamanho consenso em torno de um problema de dimens\u00e3o planet\u00e1ria. Esse conhecimento (n\u00e3o uma mera opini\u00e3o) foi constru\u00eddo ao longo de d\u00e9cadas.<br>A explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica desse processo \u00e9 relativamente simples. A atmosfera cont\u00e9m gases capazes de conter o calor, absorvendo parte da radia\u00e7\u00e3o infravermelha emitida pela superf\u00edcie terrestre. Esse mecanismo, conhecido como efeito estufa, \u00e9 indispens\u00e1vel para a vida, pois mant\u00e9m a temperatura m\u00e9dia do planeta em torno de 14\u00b0C a 15\u00b0C. Sem ele, a Terra apresentaria temperaturas pr\u00f3ximas de -18\u00b0C e h\u00e1 d\u00favidas se ter\u00edamos formas de vida na Terra. O problema, portanto, n\u00e3o \u00e9 o efeito estufa, mas sim sua intensifica\u00e7\u00e3o, provocada pelo aumento da concentra\u00e7\u00e3o de gases como di\u00f3xido de carbono (CO\u2082), metano (CH\u2084) e \u00f3xido nitroso (N\u2082O).<\/p>\n\n\n\n<p>Antes da chamada \u2018Revolu\u00e7\u00e3o Industrial\u2019, a concentra\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica de di\u00f3xido de carbono era de aproximadamente 280 partes por milh\u00e3o (ppm). Atualmente ela ultrapassa 430 ppm, alcan\u00e7ando n\u00edveis sem precedentes na hist\u00f3ria recente do planeta (NOAA, 2025). O di\u00f3xido de carbono permanece na atmosfera durante d\u00e9cadas e at\u00e9 s\u00e9culos, tornando-se o principal respons\u00e1vel pelo aquecimento acumulado. O metano, originado principalmente pela atividade agropecu\u00e1ria, permanece menos tempo, cerca de doze anos, por\u00e9m possui um potencial de aquecimento muito superior no curto prazo. J\u00e1 o \u00f3xido nitroso, proveniente principalmente da agricultura intensiva e de determinados processos industriais, como a produ\u00e7\u00e3o de subst\u00e2ncias utilizadas na fabrica\u00e7\u00e3o de fertilizantes sint\u00e9ticos, combina elevada perman\u00eancia atmosf\u00e9rica com grande capacidade de reten\u00e7\u00e3o de calor (IPCC, 2023).<br>Hoje j\u00e1 dispomos de conhecimento suficiente para compreender as causas da crise, mas as elites empresariais e os donos do poder seguem ampliando as emiss\u00f5es globais de gases de efeito estufa, modificando a cobertura do solo (e com isso a din\u00e2mica atmosf\u00e9rica em escala regional), vulnerabilizando comunidades e, o pior de tudo, transferindo responsabilidades e inventando falsos culpados em situa\u00e7\u00f5es de desastres ocasionados por eventos extremos.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, essa discuss\u00e3o assume caracter\u00edsticas particulares. Diferentemente de muitos pa\u00edses industrializados h\u00e1 mais tempo, onde predominam as emiss\u00f5es associadas ao setor energ\u00e9tico, parcela significativa das emiss\u00f5es brasileiras decorre do desmatamento, das mudan\u00e7as no uso da terra e da agropecu\u00e1ria. Com parte significativa da floresta perdendo sua capacidade de reciclar umidade por meio dos chamados rios voadores, os impactos tendem a comprometer a agricultura, a gera\u00e7\u00e3o de energia hidrel\u00e9trica, o abastecimento de \u00e1gua e o pr\u00f3prio regime de chuvas em grande parte da Am\u00e9rica do Sul, especialmente no sul do Brasil.<br>Compreender essa realidade exige evitar simplifica\u00e7\u00f5es. N\u00e3o existe uma \u00fanica agricultura, mas diferentes formas de produzir alimentos, organizar o territ\u00f3rio e relacionar-se com a natureza. A expans\u00e3o de monoculturas, a elevada depend\u00eancia de fertilizantes sint\u00e9ticos, o crescimento da pecu\u00e1ria intensiva e a convers\u00e3o de florestas em \u00e1reas agr\u00edcolas constituem importantes fontes de emiss\u00f5es. Contraditoriamente, o pr\u00f3prio setor agropecu\u00e1rio torna-se um dos mais vulner\u00e1veis \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<br>De acordo com Eduardo Delgado Assad, o aumento das temperaturas, a altera\u00e7\u00e3o dos regimes de chuva e a maior frequ\u00eancia de eventos extremos j\u00e1 afetam culturas agr\u00edcolas em diferentes regi\u00f5es brasileiras, exigindo profundas adapta\u00e7\u00f5es produtivas. Agricultura e clima estabelecem, portanto, uma rela\u00e7\u00e3o de dupla causalidade: determinados sistemas produtivos contribuem para o aquecimento global e, simultaneamente, sofrem seus efeitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse debate ganha ainda mais relev\u00e2ncia em um ano cujas previs\u00f5es indicam a possibilidade de forma\u00e7\u00e3o de um \u2018Super\u2019 El Ni\u00f1o. Em s\u00edntese, o El Ni\u00f1o \u00e9 um fen\u00f4meno c\u00edclico de variabilidade clim\u00e1tica natural, identific\u00e1vel pelo aquecimento an\u00f4malo das \u00e1guas superficiais do Oceano Pacifico em sua faixa tropical. No Brasil, os impactos do fen\u00f4meno costumam ser redu\u00e7\u00e3o de chuvas e eleva\u00e7\u00e3o das temperaturas no Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste; baixa umidade do ar e ondas de calor no Sudeste e Centro-Oeste; e um aumento da frequ\u00eancia e intensidade de chuvas no Sul, podendo refletir em deslizamentos, enxurradas e inunda\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de fen\u00f4menos atmosf\u00e9ricos associados ao alto grau de energia na atmosfera (tempestades, tornados, micro-explos\u00f5es, etc).<\/p>\n\n\n\n<p>Tratar a natureza como algo alheio \u00e0 sociedade \u00e9 uma engrenagem ideol\u00f3gica que, al\u00e9m de ser um equ\u00edvoco te\u00f3rico, pavimenta o caminho para destrui\u00e7\u00e3o mundial. O encurtamento do tempo entre eventos extremos nos coloca diante de um dilema civilizat\u00f3rio no qual precisamos decidir se mantemos a ilus\u00e3o de um \u201cdesenvolvimento infinito\u201d regido pela m\u00e9trica do lucro, ou se escutamos a ci\u00eancia e os saberes ancestrais que apontam para a coexist\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 de se esperar que uma verdadeira e eficiente transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-ecol\u00f3gica venha de gabinetes que pacificam a vida ou estabelecem como objetivo a hegemonia. O que precisamos \u00e9 de coragem para reconfigurar nossa presen\u00e7a no planeta.<\/p>\n\n\n\n<p>Reportagem completa em outraspalavras.net<br>Foto: <em>Valerie Gache \/ AFP \u2013 Getty Images file<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Resumo da Reda\u00e7\u00e3o \u2013 Dito Ballio<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A crise clim\u00e1tica escancara-se em todo o mundo. Um sistema que sonha com a expans\u00e3o e o lucro infinitos converteu em desastre a energia abundante. 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