{"id":7707,"date":"2025-08-13T15:35:20","date_gmt":"2025-08-13T18:35:20","guid":{"rendered":"https:\/\/rosarioitanews.com.br\/index2.php\/?p=7707"},"modified":"2025-08-13T15:35:21","modified_gmt":"2025-08-13T18:35:21","slug":"expedicao-une-ciencia-e-saberes-tradicionais-indigenas-para-resgatar-alimentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rosarioitanews.com.br\/index2.php\/expedicao-une-ciencia-e-saberes-tradicionais-indigenas-para-resgatar-alimentos\/","title":{"rendered":"Expedi\u00e7\u00e3o une ci\u00eancia e saberes tradicionais ind\u00edgenas para resgatar alimentos."},"content":{"rendered":"\n<p>Entre 7 e 9 de agosto, pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Universidade Federal de Goi\u00e1s (UFG) e Embrapa Alimentos e Territ\u00f3rios estiveram no noroeste de Mato Grosso para dialogar com representantes dos povos Terena, Pares\u00ed e Nambikwara e mapear frutos e tub\u00e9rculos que podem voltar a compor a dieta tradicional das aldeias.<\/p>\n\n\n\n<p>O som vibrante da arara-canind\u00e9 cortava o ar enquanto o rio Buritis corria, constante, atr\u00e1s da pequena cozinha com telhado de palha de baba\u00e7u. Ali, na aldeia Serra Azul, a professora Cleide Terena lembrava de um tempo em que o prato mais esperado da inf\u00e2ncia era um mingau feito de um milho vermelho, hoje desaparecido da regi\u00e3o. \u201cMeu av\u00f4 tecia redes de algod\u00e3o. A gente vivia de outra forma. Hoje, muitos dos nossos alimentos se perderam\u201d, contou, com o olhar dividido entre a mem\u00f3ria e o futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>A cena fez parte da primeira expedi\u00e7\u00e3o do projeto \u201cAproveitamento integral de frutos e tub\u00e9rculos da Amaz\u00f4nia Legal\u201d, iniciativa da UFMT, UFG e Embrapa Alimentos e Territ\u00f3rios. Financiado pela Iniciativa Amaz\u00f4nia+10, o projeto busca resgatar esp\u00e9cies nativas e cultivadas, valorizar saberes tradicionais e estimular a bioeconomia ind\u00edgena como estrat\u00e9gia para reduzir a inseguran\u00e7a alimentar nas aldeias.<br>Com dura\u00e7\u00e3o prevista de 36 meses, a pesquisa conta com o apoio do CNPq e das Funda\u00e7\u00f5es de Amparo \u00e0 Pesquisa de Mato Grosso (FAPEMAT), Alagoas (FAPEAL) e Goi\u00e1s (FAPEG).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mulheres em rede &#8211;\u00a0<\/strong>Cleide \u00e9 l\u00edder da Associa\u00e7\u00e3o Thuthalinansu, criada em 2018 para fortalecer a atua\u00e7\u00e3o das mulheres ind\u00edgenas e suas atividades produtivas. \u201cOs homens pegavam o carro e o dinheiro para ir \u00e0 cidade e n\u00f3s fic\u00e1vamos com as crian\u00e7as passando fome. A evas\u00e3o escolar aumentava. Criamos a associa\u00e7\u00e3o para mudar isso\u201d, explica. Desde ent\u00e3o, as associadas j\u00e1 participaram de edital da marca francesa L&#8217;Or\u00e9al, cursos de corte e costura, desenho de moda e a\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 agricultura familiar e \u00e0 ancestralidade. Mas os desafios permanecem \u2014 e agora tamb\u00e9m v\u00eam do clima. \u201cAs mudan\u00e7as clim\u00e1ticas j\u00e1 chegaram aqui. A colheita n\u00e3o tem mais o mesmo tempo certo\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Na aldeia Cabeceira do Jabuti, as irm\u00e3s Vanessa, V\u00e2nia, Elisabete e a matriarca Lourdes, do povo Nambikwara, receberam a equipe mostrando, com orgulho, o artesanato colorido que produzem. Entre lembran\u00e7as e hist\u00f3rias, listaram os alimentos que despareceram: milho-pipoca, feij\u00e3o-fava, amendoim, car\u00e1-roxo. Vanessa compartilhou o mito do Menino que virou ro\u00e7a e ressaltou que, em quase todos os rituais, \u00e9 costume oferecer comida aos parentes ind\u00edgenas como forma de agradecimento e conex\u00e3o. Hoje, por\u00e9m, a dieta na aldeia \u00e9 restrita: arroz, mandioca, feij\u00e3o, macarr\u00e3o, temperos industrializados, caf\u00e9, leite, mingau de fub\u00e1, frango e peixe. Hortali\u00e7as n\u00e3o aparecem no prato.<\/p>\n\n\n\n<p>No \u00faltimo dia de expedi\u00e7\u00e3o, 14 ind\u00edgenas das aldeias Anchieta, Arara Azul, Guarant\u00e3, Kaititu, Novo Horizonte e Para\u00edso se reuniram na aldeia Serra Azul. Levaram a\u00e7afr\u00e3o, farinha de mandioca, massa para beij\u00fa, lim\u00e3o-galego, banana, tempero caseiro, mini ab\u00f3boras, araruta, um peixe inteiro e pe\u00e7as de artesanato, mostrando o que ainda produzem e consomem.&nbsp;\u201cPercebemos que h\u00e1 um mesmo comportamento alimentar nas aldeias, mas falta diversidade\u201d, observou a coordenadora do projeto, Maressa Morzelle (UFMT).&nbsp;Para o pesquisador Moacir Haverroth (Embrapa), os fatores geogr\u00e1ficos tamb\u00e9m pesam: \u201cA TI \u00e9 cercada por grandes fazendas, com as melhores terras. Aqui, o solo \u00e9 pobre, t\u00edpico do Cerrado, com relevo para mais acidentado e as queimadas s\u00e3o comuns\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que ficou e o que se perdeu<br><\/strong><br>Ainda resistem na TI Tirecatinga alimentos como mandioca, batata, araruta, jatob\u00e1, car\u00e1, mangaba, cajuzinho-do-cerrado, abacaxi-do-cerrado, bacaba e birici. Entre os pratos t\u00edpicos, destacam-se o beij\u00fa de mandioca com peixe cozido,\u00a0 o bolo de beij\u00fa com peixe e feij\u00e3o-fava. O mais citado, por\u00e9m, foi a chicha \u2014 bebida fermentada tradicionalmente produzida por povos ind\u00edgenas da Am\u00e9rica Latina, especialmente nos Andes e na Amaz\u00f4nia. Pode ser feita com gr\u00e3os, como o milho (especialmente o milho jora), ou ra\u00edzes, como a mandioca. Mais do que uma bebida, \u00e9 um elemento cultural de forte significado ritual e social.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 na lista dos alimentos perdidos est\u00e3o, al\u00e9m do milho vermelho lembrado por Cleide, o milho-pipoca, feij\u00e3o-fava, amendoim e car\u00e1-roxo \u2014 esp\u00e9cies que o projeto pretende coletar, analisar, multiplicar e retonar as sementes para as aldeias.<\/p>\n\n\n\n<p>As pr\u00f3ximas etapas do projeto incluem oficinas sobre multiplica\u00e7\u00e3o de sementes, alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel nas escolas da TI e uso da biodiversidade como ferramenta para Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (SAN). Ao final, uma oficina gastron\u00f4mica reunir\u00e1 pratos tradicionais e apresenta\u00e7\u00f5es culturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais do que resgatar sabores, a Iniciativa Amaz\u00f4nia+10 \u00e9 uma aposta na autonomia alimentar e no protagonismo ind\u00edgena. Um caminho para que as hist\u00f3rias, rituais e mem\u00f3rias afetivas ligadas \u00e0 comida sigam vivas \u2014 e para que as crian\u00e7as das futuras gera\u00e7\u00f5es possam provar, de novo, o mingau de milho vermelho.<\/p>\n\n\n\n<p>&#x1f4cc; Terra Ind\u00edgena Tirecatinga<\/p>\n\n\n\n<p>&#x1f4cd; Localiza\u00e7\u00e3o: Munic\u00edpio de Sapezal, noroeste de Mato Grosso, no bioma Cerrado.<br>&#x1f4cf; \u00c1rea: 131 mil hectares.<br>&#x1f4dc; Hist\u00f3ria: Declarada terra ind\u00edgena em 1983 e homologada em 1991.<br>&#x1f465; Povos ind\u00edgenas: Terena, Pares\u00ed, Nambikwara, al\u00e9m de presen\u00e7a Manoki e Rikbaktsa.<br>&#x1f3e0; Aldeias: 16 aldeias; o projeto atua diretamente em 8 delas.<br>&#x1f464; Popula\u00e7\u00e3o: Aproximadamente 244 pessoas (dados 2022 \u2013 ISA).<br>&#x1f331; Projeto: \u201cAproveitamento integral de frutos e tub\u00e9rculos da Amaz\u00f4nia Legal\u201d, coordenado pela UFMT, UFG e Embrapa Alimentos e Territ\u00f3rios, financiado pela Iniciativa Amaz\u00f4nia+10.<br>&#x1f3af; Objetivos: Resgatar e multiplicar esp\u00e9cies alimentares tradicionais, fomentar bioeconomia ind\u00edgena, promover seguran\u00e7a alimentar e reduzir doen\u00e7as associadas \u00e0 m\u00e1 alimenta\u00e7\u00e3o.<br>&#x23f3; Dura\u00e7\u00e3o: 3 anos (2025-2028).<\/p>\n\n\n\n<p>&#x1f4cc; Mito Nambikwara \u2013 O menino que virou ro\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os Nambikwara, povo ind\u00edgena do noroeste de Mato Grosso, h\u00e1 uma antiga narrativa sobre um menino atra\u00eddo pelo som sagrado das flautas. Conta-se que ele desapareceu e, no local onde esteve, seu corpo come\u00e7ou a se transformar em alimentos.<br>De cada parte, nasceram plantas cultivadas:<br>Sangue \u2013 urucum<br>Pupila \u2013 feij\u00e3o-fava<br>F\u00edgado \u2013 taioba<br>Test\u00edculo \u2013 car\u00e1<br>Perna \u2013 araruta<br>Espinha \u2013 rama de mandioca<br>M\u00fasculos \u2013 raiz da mandioca<br>M\u00e3os \u2013 folhas da mandioca<br>Costelas \u2013 feij\u00e3o-preto<br>Cabe\u00e7a \u2013 caba\u00e7a<br>Miolos \u2013 tapioca<br>L\u00eandeas \u2013 sementes de fumo usadas na pajelan\u00e7a<br>O lugar onde isso aconteceu \u00e9 considerado sagrado \u2014 a \u201ccasa da flauta\u201d \u2014 e n\u00e3o pode ser desmatado ou queimado. A lenda, registrada por anci\u00e3os da etnia, simboliza a origem da ro\u00e7a e a rela\u00e7\u00e3o de respeito com a terra e seus frutos.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: Ag\u00eancia Brasil. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre 7 e 9 de agosto, pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Universidade Federal de Goi\u00e1s (UFG) e Embrapa Alimentos e Territ\u00f3rios estiveram no noroeste de Mato Grosso para dialogar com representantes dos povos Terena, Pares\u00ed e Nambikwara e mapear frutos e tub\u00e9rculos que podem voltar a compor a dieta tradicional das aldeias. 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