{"id":7244,"date":"2025-06-29T09:53:40","date_gmt":"2025-06-29T12:53:40","guid":{"rendered":"https:\/\/rosarioitanews.com.br\/index2.php\/?p=7244"},"modified":"2025-06-29T09:53:40","modified_gmt":"2025-06-29T12:53:40","slug":"em-1965-ha-60-anos-a-cantora-maria-bethania-estreou-nacionalmente-no-show-opiniao-uma-das-primeiras-respostas-das-artes-a-ditadura-militar-iniciada-no-ano-anterior-interprete-da-temporada-inicial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rosarioitanews.com.br\/index2.php\/em-1965-ha-60-anos-a-cantora-maria-bethania-estreou-nacionalmente-no-show-opiniao-uma-das-primeiras-respostas-das-artes-a-ditadura-militar-iniciada-no-ano-anterior-interprete-da-temporada-inicial\/","title":{"rendered":"Em 1965, h\u00e1 60 anos, a cantora Maria Beth\u00e2nia estreou nacionalmente no show Opini\u00e3o, uma das primeiras respostas das artes \u00e0 ditadura militar iniciada no ano anterior. Int\u00e9rprete da temporada inicial, ao lado de Z\u00e9 Keti e Jo\u00e3o do Vale, Nara Le\u00e3o indicou a baiana de 18 anos para substitu\u00ed-la."},"content":{"rendered":"\n<p>Embora tenha uma pr\u00e9-hist\u00f3ria profissional na Bahia, entre 1963 e 1964, Maria Beth\u00e2nia considera a estreia no espet\u00e1culo Opini\u00e3o no Rio de Janeiro (RJ), em fevereiro de 1965, o marco zero da trajet\u00f3ria como cantora. Por isso, a festa dos 60 anos de carreira da artista ser\u00e1 feita no palco \u2013 como de h\u00e1bito \u2013 no segundo semestre deste ano de 2025. Como os seguidores da cantora j\u00e1 esperavam, Beth\u00e2nia estreia show in\u00e9dito, anunciado nesta segunda-feira, 23 de junho.<\/p>\n\n\n\n<p>A turn\u00ea dos 60 anos de carreira da artista entrar\u00e1 em cena em setembro, no Rio de Janeiro (RJ), com quatro apresenta\u00e7\u00f5es marcadas para 6, 7, 13 e 14 de setembro na casa Vivo Rio. Na sequ\u00eancia, o show ser\u00e1 apresentado na casa Tokio Marine Hall, em S\u00e3o Paulo (SP), em 4, 5, 11 e 12 de outubro.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Bahia, estado natal da cantora que veio ao mundo em Santo Amaro de Purifica\u00e7\u00e3o (BA) em 18 de junho de 1946, o show ser\u00e1 na Concha Ac\u00fastica do Teatro Castro Alves, em Salvador (BA), em 15 de novembro.<\/p>\n\n\n\n<p>A venda de ingressos abre em 3 de julho. Mas antes, em 30 de junho e 1\u00ba de julho, haver\u00e1 pr\u00e9-venda para portadores do cart\u00e3o da empresa patrocinadora da turn\u00ea. Datas e cidades extras certamente ser\u00e3o anunciadas ap\u00f3s a abertura das vendas de ingressos para esses primeiros shows.<\/p>\n\n\n\n<p>Maria Beth\u00e2nia Viana Teles Veloso, Berr\u00e9, Maricotinha\u2026 Abelha Rainha, Dona do dom, corda vocal insubmissa, menina dos olhos de Oy\u00e1\u2026 As imagens da menina de Santo Amaro e da rainha em cena nos palcos se misturam no imagin\u00e1rio de parcela massiva de brasileiros e brasileiras que admiram sua arte. S\u00e3o quase 79 anos de vida e 60 anos de uma carreira atravessada por imagens duais, por vezes m\u00edticas, constru\u00eddas em torno de uma das maiores int\u00e9rpretes da m\u00fasica popular.<\/p>\n\n\n\n<p>Os superlativos s\u00e3o diversos, muito embora ela mesma seja reticente aos t\u00edtulos, reconhecendo sua pequenez diante deste mundo-vasto-mundo, como ela mesma escreveu e recitou por ocasi\u00e3o dos seus 50 anos de carreira em 2015: &#8220;agradecer a cada folha, a toda raiz, as pedras majestosas e as pequeninas como eu, em Aruanda&#8221;. Contudo, n\u00e3o \u00e9 esta a t\u00f4nica da m\u00eddia e da cultura de f\u00e3s que se desenvolveu nesses 60 anos de carreira. Ao contr\u00e1rio, n\u00e3o \u00e9 exagero afirmar que h\u00e1 quem se comporte como um verdadeiro s\u00e9quito da abelha rainha.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa cultura de f\u00e3s entre os fi\u00e9is apreciadores de Beth\u00e2nia por vezes pode ser comparada ao fen\u00f4meno atual do tratamento dispensado \u00e0s divas do pop. Fato incontest\u00e1vel \u00e9 que na conjuntura atual, marcada pela efemeridade das curtidas e do &#8220;engajamento&#8221; nas redes sociais, toda uma gera\u00e7\u00e3o acostuma-se com a equipara\u00e7\u00e3o dos n\u00fameros ao talento e \u00e0 qualidade do trabalho de um artista. Nem sempre foi assim. Beth\u00e2nia, por exemplo, gravou seu primeiro disco em 1965 e s\u00f3 recebeu o primeiro pr\u00eamio de &#8220;disco de ouro&#8221; pelas vendas anos depois, com o P\u00e1ssaro Proibido, em 1976. Seu \u00e1lbum de sucesso nacional, \u00c1libi, vendeu um milh\u00e3o de c\u00f3pias e foi lan\u00e7ado em 1978, dezoito anos ap\u00f3s o disco de estreia. A quadra hist\u00f3rica em que gravadoras apostavam e financiavam projetos\/discos que n\u00e3o apresentavam lucro imediato cessou ainda nos anos 1970.<\/p>\n\n\n\n<p>O tempo que projetou Beth\u00e2nia j\u00e1 n\u00e3o existe mais. Na din\u00e2mica da ind\u00fastria cultural, tal como Chico Science denunciou com os versos de Fred 04, &#8220;computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro&#8221;, estimulando que m\u00fasicos busquem &#8220;viralizar&#8221; com can\u00e7\u00f5es curtas, lan\u00e7amentos de singles em detrimento dos \u00e1lbuns, coreografias e refr\u00e3os para embalar as &#8220;tend\u00eancias&#8221; reproduzidas nas m\u00eddias sociais e gerar engajamento. As gravadoras disputam com as plataformas que hospedam milh\u00f5es de v\u00eddeos e m\u00fasicas, sendo que a maior veicula\u00e7\u00e3o das can\u00e7\u00f5es no universo do streaming est\u00e1 vinculada ao alcance dos artistas nas m\u00eddias sociais. Diante deste quadro, artistas diversos da gera\u00e7\u00e3o de Beth\u00e2nia t\u00eam renovado seus p\u00fablicos, fazem shows esgotados para grandes plateias, s\u00e3o regravados por jovens artistas, gravam parcerias e percorrem o Brasil em festivais de m\u00fasica. Nos \u00faltimos anos Beth\u00e2nia foi homenageada no carnaval pela Mangueira, foi tema de v\u00e1rios document\u00e1rios, gravou e apresentou programas de TV e podcast, sua arte inspira a forma\u00e7\u00e3o de blocos de carnaval pelo pa\u00eds, est\u00e1 em turn\u00ea com o irm\u00e3o Caetano Veloso fazendo uma s\u00e9rie de shows em est\u00e1dios em todas as regi\u00f5es do pa\u00eds, com p\u00fablico estimado em mais de um milh\u00e3o de pessoas (se considerarmos a apresenta\u00e7\u00e3o na virada do ano em Copacabana)\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Diante dessas mudan\u00e7as, o que torna a obra de Maria Beth\u00e2nia perene ao tempo? Os superlativos constru\u00eddos nos imagin\u00e1rio cultural brasileiro s\u00e3o suficientes para explicar tamanha longevidade?<\/p>\n\n\n\n<p>Fiel a si pr\u00f3pria, Beth\u00e2nia construiu sua carreira marcada por elementos que a fazia pulsar de emo\u00e7\u00e3o ao escolher can\u00e7\u00f5es em que podia interpretar com vigor e verdade. Manteve-se com certa dist\u00e2ncia dos compromissos com determinados movimentos est\u00e9ticos na m\u00fasica, seja com a vanguarda tropicalista ou com os acenos ao pop, t\u00e3o comum entre os artistas da sua gera\u00e7\u00e3o na d\u00e9cada de 1980. A coer\u00eancia, portanto, \u00e9 um fator determinante para a longevidade de uma carreira. Mesmo na contra tend\u00eancia do mercado (como ocorreu nos anos 1980), Beth\u00e2nia se reposicionou e, incessantemente, gravou discos, lan\u00e7ou o pr\u00f3prio selo pela gravadora Biscoito Fino (ao se afastar das empresas multinacionais que operam na m\u00fasica) e seguiu percorrendo o Brasil fazendo shows, em geral, esgotados. Para se ter dimens\u00e3o hist\u00f3rica, entre 1965 e 2021, Beth\u00e2nia lan\u00e7ou 60 discos, sendo 22 registros de apresenta\u00e7\u00f5es ao vivo e 38 em est\u00fadio.<\/p>\n\n\n\n<p>Somente a coer\u00eancia ao seu intento de evidenciar verdade e emo\u00e7\u00e3o no seu trabalho n\u00e3o basta. Outra caracter\u00edstica que faz de Beth\u00e2nia uma artista de envergadura \u00e9 a sua originalidade. Ao chegar no Rio, em 1965, se impressionaram com os contrastes em rela\u00e7\u00e3o ao que era presumido \u00e0s mulheres: seu timbre de voz contralto, sua apar\u00eancia andr\u00f3gina e sua postura violenta ao cantar Carcar\u00e1. Mas, o que cravou originalidade em sua obra foi o cruzamento intertextual entre o cancioneiro popular brasileiro, a literatura (em especial a poesia) e os elementos teatrais. Esse verdadeiro continuum proporcionado pelo veio dram\u00e1tico, pelo encontro com grandes nomes da cena (da estirpe de Boal, Fauzi e Bibi) e pelo apre\u00e7o \u00e0 literatura fez da cantora uma int\u00e9rprete sui generis, a atriz da can\u00e7\u00e3o e do &#8220;espet\u00e1culo de m\u00fasica teatralizado&#8221; (palavras do professor Renato Forin Jr.) t\u00e3o bem consagrado em Rosa dos Ventos (1971) mas que j\u00e1 se desenhava em Comigo me desavim (1967).<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, Beth\u00e2nia consegue, nesses 60 anos dedicados \u00e0 senhora m\u00fasica, trazer em seu canto a beleza e o espanto de ser inteiramente brasileira. Vinda de um terra banhada pela Ba\u00eda de Todos os Santos, ber\u00e7o hist\u00f3rico do que chamamos de Brasil, Beth\u00e2nia tamb\u00e9m se entranhou no Rio, outro polo cultural deste pa\u00eds t\u00e3o dilacerado pela desigualdade, pelo racismo, pela viol\u00eancia e toda forma de iniquidade. Cantar o samba de roda do Rec\u00f4ncavo e o samba carioca, louvar os orix\u00e1s e a devo\u00e7\u00e3o ao catolicismo popular, se embrenhar nos boleros, nas can\u00e7\u00f5es de amor tipicamente urbanas, ecoar as vozes do sert\u00e3o, do que muitas vezes ouvimos como &#8220;Brasil profundo&#8221; que n\u00e3o \u00e9 nada al\u00e9m do que o pr\u00f3prio Brasil que n\u00e3o est\u00e1 no eixo Rio\/S\u00e3o Paulo, evocar os povos ind\u00edgenas e os dilemas da nossa quest\u00e3o agr\u00e1ria e ambiental. E Beth\u00e2nia buscou fazer isso de um modo nada panflet\u00e1rio ou protocolar. Sua inten\u00e7\u00e3o est\u00e1 na visibilidade que as coisas mi\u00fadas podem oferecer, ou seja, o valor da pedrinha miudinha que n\u00e3o est\u00e1 nos retratos da hist\u00f3ria oficial, aspecto que Luis Ant\u00f4nio Simas enfatizou em di\u00e1logo que tivemos sobre a obra do int\u00e9rprete.<\/p>\n\n\n\n<p>Chico C\u00e9sar sintetizou em palavras, que aqui devemos tomar emprestadas, duas figuras de linguagem para se referir \u00e0 Beth\u00e2nia: &#8220;serafim de prociss\u00e3o do interior&#8221;, em Dona do dom e &#8220;corda vocal insubmissa&#8221;, em Arco da velha \u00edndia. A dualidade entre o serafim e a insubmiss\u00e3o muito nos interessa, expressa a complexidade e a peculiaridade da est\u00e9tica constru\u00edda por Beth\u00e2nia ao longo dos \u00faltimos 60 anos. Chico captou, para al\u00e9m dos superlativos da realeza, elementos centrais da obra de Beth\u00e2nia: sua coer\u00eancia, originalidade e seu enraizamento na cultura nacional. A int\u00e9rprete que gravou Alteza (1981) e cantou \u201csou uma rainha que voluntariamente \/ abdiquei cetro e coroa\u201d, certamente n\u00e3o se incomoda de ser a nossa abelha rainha, contudo, tem ci\u00eancia de que as ins\u00edgnias que acumulou s\u00f3 fazem algum sentido se lastreada na sua trajet\u00f3ria como mulher e trabalhadora, como ela pr\u00f3pria enfatizou em seu discurso na Universidade Federal do Cear\u00e1 na cerim\u00f4nia que lhe concedeu o t\u00edtulo de Doutora Honoris Causa.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez tenha sido Ferreira Gullar uma das primeiras pessoas a entender a dimens\u00e3o da contribui\u00e7\u00e3o de Beth\u00e2nia para a m\u00fasica popular e para o Brasil. Para al\u00e9m de uma discuss\u00e3o ociosa sobre n\u00fameros, t\u00e9cnica vocal, performance e engajamento, me lembro aqui da observa\u00e7\u00e3o do poeta maranhense: o que a torna uma grande cantora \u00e9 a sua capacidade de construir interpreta\u00e7\u00f5es definitivas, dentro de um momento hist\u00f3rico, das can\u00e7\u00f5es de um pa\u00eds. Beth\u00e2nia, nas palavras de Gullar &#8220;\u00e9 uma cantora nacional, deste pa\u00eds, enraizada nele&#8221;. Nestes 60 anos, ao cantar o amor e as agruras deste pa\u00eds, Beth\u00e2nia tamb\u00e9m canta um pouquinho sobre todos n\u00f3s, aspecto que fez e faz dela, sem d\u00favidas, uma das grandes int\u00e9rpretes do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Leonardo Nogueira \u00e9 doutor em Servi\u00e7o Social, professor do Departamento de Servi\u00e7o Social da Universidade Federal de Ouro Preto e coordenador do Trem da Hist\u00f3ria: grupo de pesquisa e extens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Fonte: Brasil de Fato.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Embora tenha uma pr\u00e9-hist\u00f3ria profissional na Bahia, entre 1963 e 1964, Maria Beth\u00e2nia considera a estreia no espet\u00e1culo Opini\u00e3o no Rio de Janeiro (RJ), em fevereiro de 1965, o marco zero da trajet\u00f3ria como cantora. 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