{"id":5338,"date":"2024-01-12T19:39:39","date_gmt":"2024-01-12T22:39:39","guid":{"rendered":"https:\/\/rosarioitanews.com.br\/?p=5338"},"modified":"2024-01-12T19:39:40","modified_gmt":"2024-01-12T22:39:40","slug":"samba-e-filosofia-ou-samba-e-filosofia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rosarioitanews.com.br\/index2.php\/samba-e-filosofia-ou-samba-e-filosofia\/","title":{"rendered":"Samba \u00e9 filosofia ou samba e filosofia?"},"content":{"rendered":"\n<p>Jeferson da Costa Vaz<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o diferente de outras investidas intelectuais acerca de temas diversos, quando pensamos em filosofia e samba tamb\u00e9m nos situamos diante de questionamentos. Afinal, o samba \u00e9 filosofia ou podemos pensar apenas em temos de samba e filosofia? Se o samba \u00e9 filosofia, ent\u00e3o significa que encontramos no samba um tipo de saber que promove a cr\u00edtica e o questionamento sobre a realidade e que dessa cr\u00edtica e questionamento pode ler a realidade de certas maneiras que antes, sem a provoca\u00e7\u00e3o do ritmo marcado pelo surdo e tamborim, n\u00e3o seriam poss\u00edveis.<br>Em verdade, a esses questionamentos acerca de ser o samba uma filosofia ou se o samba pode ser visto acompanhado, conjugado da filosofia preciso ser honesto em confessar que as duas coisas est\u00e3o corretas. O samba \u00e9 filosofia, mas, corrigindo o meu equ\u00edvoco, n\u00e3o apenas uma filosofia, mas a express\u00e3o de v\u00e1rias. Al\u00e9m disso, podemos falar de \u201csamba e filosofia\u201d, pois n\u00e3o raramente as mestras e os mestres do samba promoveram debates sobre a filosofia e fizeram do samba o seu meio de promo\u00e7\u00e3o de um debate p\u00fablico.<br>Em que sentido o samba pode ser observado como algo que acompanha e que \u00e9 adicional \u00e0 filosofia? No sentido de Chico Brito de Wilson Baptista e Afonso Teixeira (Odeon, outubro de 1950). Trata-se de uma narrativa de uma personagem do morro que, diante das mudan\u00e7as sociais, acaba seguindo a tend\u00eancia de buscar meios ilegais e imorais para manter a sobreviv\u00eancia. Como disseram os compositores, \u201cChico Brito fez do baralho o seu melhor esporte, \u00e9 valente do morro e dizem que fuma uma erva do norte\u201d (1950). \u00c9 um samba que tem uma filosofia como algo adicional, principalmente quando a tese de Chico Brito reitera o que j\u00e1 havia sido dito pelo fil\u00f3sofo Jean-Jacques Rousseau (1712\u20141778), a saber: \u201cSe o homem nasceu bom e bom n\u00e3o se conservou \/ A culpa \u00e9 da sociedade que o transformou\u201d (Baptista; Teixeira, 1950).<br>De que modo podemos pensar que o samba \u00e9 filosofia? Podemos tomar esse samba mesmo como exemplo. O que estaria fazendo Wilson Baptista sen\u00e3o resgatando a pr\u00e1tica ancestral da oralidade j\u00e1 presente em \u00c1frica com djelis, griots e griottes para difundir uma cr\u00edtica social a servi\u00e7o do seu povo? Acredito que h\u00e1 uma continuidade da pr\u00e1tica de griots e griottes, oradores respons\u00e1veis por difundir hist\u00f3rias, cr\u00edticas, not\u00edcias no continente Africano (principalmente na \u00c1frica Oriental) em Wilson Baptista e em demais mestres e mestras do samba.<br>\u00c9 t\u00e3o filos\u00f3fico pensar que o samba \u00e9 filosofia que, se notarmos atentamente a palavra Djeli \u00e9 traduzida como sangue. Pois as pessoas incumbidas da fun\u00e7\u00e3o Djeli t\u00eam a fun\u00e7\u00e3o de movimentar as ideias mediante a oralidade. Disso se segue a necessidade de um compromisso com a verdade, pois a mentira seria uma \u201clepra moral\u201d (2010) \u2014 como sugeriu Amadou Hamp\u00e2t\u00e9 B\u00e2 \u2014 que contaminando o sangue do corpo social, levaria esse mesmo corpo a perda de seu dinamismo vital.<br>Por que o samba \u00e9 filosofia? Pela via de que se apresenta como a Voz do Morro (Z\u00e9 Keti, 1971) e, segundo a conceptualiza\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Wilson Baptista, o samba \u00e9 A voz do Sangue (Odeon, dezembro de 1941). No colocando diante de um dilema vivido por um sambista diante da necessidade de frequentar ou n\u00e3o os ambientes samb\u00edsticos, o mestre narrou:<br>Eu preciso mudar o meu ritmo de vida<br>Mas n\u00e3o posso o samba n\u00e3o quer me deixar<br>Fico louco quando escuto um tamborim<br>\u00c9 a voz do sangue que fala dentro de mim!<br>O samba \u00e9 a voz do sangue, \u00e9 a voz do morro, \u00e9 a voz de Chico Brito, \u00e9 a voz do \u201ccrioulo do morro [que] est\u00e1 invocado\u201d pois quando \u201cDesce o morro [e] n\u00e3o encontra trabalho, ent\u00e3o volta pro baralho, e encontra feij\u00e3o para comer\u201d \u2014 citando Candeia (1978). N\u00e3o se trata do mesmo Chico Brito, tampouco do ser humano concebido por Rousseau. Mas de uma voz do sangue que partilha de um similar horizonte problem\u00e1tico para se fazer circular mediante uma cr\u00edtica social. Ou seja, mesmo n\u00e3o sendo Chico Brito ou Rousseau, \u00e9 a voz do sangue. \u00c9, portanto, similar ao que compreendemos como Djeli, uma pr\u00e1tica enraizada na oralidade compreendida como uma tecnologia ancestral.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jeferson da Costa Vaz N\u00e3o diferente de outras investidas intelectuais acerca de temas diversos, quando pensamos em filosofia e samba tamb\u00e9m nos situamos diante de questionamentos. Afinal, o samba \u00e9 filosofia ou podemos pensar apenas em temos de samba e filosofia? 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